Capoeira
O ELEMENTO NEGRO
A Capoeira é uma prática
cultural Afro-Brasileira multifacetada, ao mesmo tempo em que é luta é também
dança, é compreendida como folclore, como esporte e até como arte.
A roda é onde acontece o jogo.
Duas dimensões estão sempre presentes, o lado lúdico da festa, da brincadeira e
o outro da resistência, reação contra o sistema opressor. Os capoeiristas
cantam, batem palmas, tocam instrumentos de percussão, No centro da roda duplas
se revezam para jogar, os movimentos exigem destreza, podem ser sutis,
vigorosos e até acrobáticos. Os passos são muito difíceis e demonstram
agilidades incríveis com o corpo. A beleza e a energia da música
e dos movimentos conquistam e seduzem os participantes e o público. A roda de
capoeira é um espaço profundamente ritualizado, congrega cânticos e gestos que
expressam uma visão de mundo, a hierarquia, um código de ética e que revela o
companheirismo e solidariedade. A roda é uma metáfora da vastidão do mundo. Com
suas alegrias e adversidades é na roda de capoeira que se forma e se consagram
grandes mestres e onde se transmitem e se reinteram práticas e valores
Afro-Brasileiras tradicionais.
A roda é composta por um grupo
de pessoas formado pelo mestre o contramestre e seus discípulos. Homens e
mulheres podem ocupar qualquer uma dessas funções desde que tenham passado
pelos fundamentos específicos. O mestre é o grau mais alto na hierarquia da
roda de capoeira, o mantenedor da cultura, guardião de todos os saberes.
O ELEMENTO NEGRO
Portugal importava escravos negros desde 1443. Foi o primeiro país da Europa a desenvolver, nos tempos modernos, o comércio de escravos. Isto foi possível em conseqüência de seu domínio sobre as terra da África. Tal comércio rendia grandes lucros aos traficantes.
Com a implantação e o desenvolvimento da atividade açucareira no Brasil, surgiu a necessidade de braços para trabalhar na lavoura. A princípio, os colonizadores utilizavam-se dos índios, mas a sua escravização trazia alguns inconvenientes, pois eles, vivendo em constantes lutas, pertubavam os planos do colonizador. Por isso, foram sendo eliminados. A solução, então, foi implantar no Brasil o tráfico negreiro, que já era utilizado nas colônias espanholas da América. Um grande comércio foi reorganizado para atender as necessidades dos senhores de engenho. Este comércio, ao contrário da escravização do índio, proporcionava enormes lucros à Coroa portuguesa. Por esta razão, foi grandemente estimulado.
Segundo as mais corretas estimativas, de 1568 a 1859, o tráfico negreiro foi responsável pela introdução no Brasil de um total de , aproximadamente, 3600000 escravos. Estes negros pertenciam principalmente a dois grupos africanos:
• Bantos: tribos negras do sul da África, geralmente de Angola e Moçambique, que era trazidas principalmente para Pernambuco e Rio de Janeiro:;
• Sudaneses: tribos negras de Daomé, Nigéria e Guiné, que foram trazidas principalmente para a Bahia. Tinham um nível de conhecimento agrícola mais elevado que o dos bantos.
O transporte dos escravos saidos da África era realizado pelos navios negreiros, os negros eram colocados nos porões destes navios, onde o espaço era insuficiente, o ambiente escuro e o calor insuportável. Não havia ar livre para se respirar. Além disso, a água era suja e faltava alimento. Durante as horríveis viagens morriam de 20 a 40% dos negros, em razão dos maus tratos recebidos e das péssimas condições de transporte. Por isso, em Angola, esses navios eram chamados de tumbeiros, palavra relativa a tumba ou sepultura.
Um duro trabalho era reservado aos negros que conseguiam sobreviver às cruéis viagens. Chegando ao Brasil, eles eram vendidos no mercados de escravos e algum tempo depois já estavam trabalhando para os seus proprietários, à base de chicote. Realizavam os mais diversos tipos de atividades nas casas, na lavoura, na mineração. Embora os escravos possuíssem admirável resistência física o excesso de trabalho e os maus tratos recebidos acabavam lhes afetando, rapidamente, o estado de saúde. Por esta razão, a média de vida dos escravos não ultrapassava 25 anos. Para os proprietários, a morte de um escravo significava, apenas, a perda de uma mercadoria. O seu problema se resolvia com a compra de outro escravo.
ASPECTOS HISTÓRICOS DA CAPOEIRA
Há uma grande controvérsia em torno da história da capoeira sobretudo no que se refere ao período compreendido entre o seu surgimento, provavelmente no século XVI e o século XVII, quando aparecem registros confiáveis, com descrições detalhadas da luta.
A discussão é interminável: pesquisadores, folcloristas e africanistas ainda buscam resposta para seguinte questão: a capoeira é uma invenção africana ou brasileira? Teria sido uma criação do escravo com sede de liberdade? Ou uma invenção do indígena?
As opiniões tendem para o lado brasileiro e aqui vão alguns exemplos: no livro a Arte da Gramática da língua mais usada na costa do Brasil, do padre José de Anchieta, editada em 1595, há uma citação de que “os índios tupi-guaraní divertiam-se jogando capoeira”. Guilherme de Almeida, no livro Música do Brasil, sustenta serem indígenas as raízes da capoeira. O navegador português, Martim Afonso de Souza observou tribos jogando capoeira. Como se não bastasse, a palavra capoeira (caápuêra) é um vocabulário tupí-guaraní que significa “mato ralo” ou “mato que foi cortado”.
Também o estudioso Waldeloir do Rego, que escreveu o que foi considerado o melhor trabalho sobre este jogo, defende a tese de que a capoeira foi inventada no Brasil. Brasil Gerson, historiador das ruas do Rio de Janeiro, acha que o jogo nasceu no mercado, quando os escravos chegavam com o cesto (capoeira) de aves na cabeça é até serem atendidos, ficavam brincando de lutar, surgindo daí a verdadeira capoeira. Por fim, câmara cascudo afirma “ter sido trazida pelos Banto-congo-Angoleses que praticavam danças litúrgicas ao som de instrumentos de percussão”, transformando-se em luta aqui no Brasil.
Muito embora seja suficientemente esclarecido que a capoeira é uma luta surgida no Brasil, é preciso considerá-la como parte da dinâmica constante da cultura afro-brasileira. Assim, a capoeira surgiu de um conjunto de aspectos pré existente nas culturas das comunidades africanas (rituais, danças, jogos, cultura musical etc).
Os estudos de BREGOLATO (2008) e CRUZ (2010), entre outros, sustentam a idéia de que a capoeiragem teria realmente surgido em solo brasileiro e teria sido criada pelos negros que foram escravizados. De acordo com FERREIRA (2007):
Tudo leva a crer que ela não era uma prática originaria da África, mas que foi criada pelos escravos africanos no Brasil, possivelmente uma recriação de diversos rituais e danças guerreiras. Estes rituais e as danças foram aos poucos se amoldando ás necessidades e ao novo tipo de socialização que os africanos foram submetidos no cativeiro. (FERREIRA, 2007 p. 23).
Porém MARINHO (1956) sustenta a idéia de que a Capoeira, antes de chegar ao Brasil, já era praticada em Angola, como uma dança religiosa. Mestre Noronha7, que é conhecido no mundo da capoeira e praticante de uma das maiores escolas capoeiristicas do país, sustenta a idéia de que “a capoeira veio da África, porém não era educada” (MILANI, 2011).
Corroborando com MARINHO (1956), DACOSTA (sem data) afirma que:
A forma primitiva da capoeira chegou ao Brasil com os negros bantu, originários da África Ocidental. Essa fase inicial deve ter sido uma espécie de dança ritual, pois, ainda hoje, na Bahia, se observam ligações da capoeiragem com crenças, cerimoniais e cânticos fetichistas. (DACOSTA, sem data p. 13).
Concordando MARINHO e DACOSTA, as enciclopédias BARSA (..., pag. 79) e DELTA UNIVERSAL (..., pág. 1730), nos descrevem “que a origem capoeirana é da África, e chegou ao Brasil trazida pelos negros bantus da região de Angola no século XVI”. CIVITA (sem data pag. 736), também diz que: “é da África, mas lá não era igual à luta que é praticada aqui até hoje, essa luta estava associada a uma cerimônia mágico-religiosa com denominações regionais: n’ golo em Benguela (sul de Angola)”, onde DECÂNIO FILHO (1996) traz a idéia dessa manifestação também ser conhecida como dança das zebras, que acontece quando as moças têm a menarca passando a ser mulheres e, nesse período, há uma festa onde ocorre a dança em que o rapaz vencedor da mesma tem o direito de escolher a esposa entre as novas iniciadas, considerada tradição da luta com os pés, e a Bassúla em Luanda capital ao norte de Angola onde, de acordo com ALLEONI (2010 pag. 28), “essa luta era praticada na areia pelos antigos pescadores daquela região, com golpes desequilibrantes, entre outras como a Kambangula e o Omundiú”.
Reforçando essa descrição, de acordo com E SOUZA (2005 Pag. 131), Pastinha contou ter aprendido a luta com um escravo vindo de Angola, chamado Benedito, que lhe ensinou a capoeira, que vinha da dança africana chamada n’golo”. Nessa dança, os combatentes se enfrentam no centro da roda, ao som de tambores e palmas, dando golpes de pés e cabeça e tendo apoio das mãos. Isso nos leva a crer que realmente a capoeira teria vindo da África, mais especificamente da região de Angola, sendo derivada do n’golo e conduzida pelos escravos bantus.
Contudo:
Dizer que a Capoeira é africana porque os africanos já dançavam o N’Golo (ou Kisema) ou que já lutavam a Bassúla ou a Kambangula é reduzir a Capoeira a uma forma limitada de expressão corporal, seja à dança ou à luta. Esquece-se, portanto que a união destas e de outras expressões corporais mais a musicalidade e mais o toque de instrumentos musicais é que completam a arte da Capoeira. O N’Golo é um ritual onde se procura atingir o rosto do oponente com os pés. A Bassúla é uma luta praticada na areia pelos antigos pescadores de Luanda, com golpes desequilibrantes. A Kambangula é disputada dentro de rodas, com pessoas batendo palmas e cantando, porém sem nenhum acompanhamento de instrumento musical. O Omundiú é um jogo atlético disputado com as pernas. Existem também as diversas outras danças acrobáticas, com saltos e movimentos parecidos aos incorporados pelos capoeiristas. (ALLEONI, 2010 pag.27).
Seguindo a idéia de ALLEONI, a capoeira pode não ter se originado apenas de uma só dança ou luta africana, pelo fato de que, se observarmos uma dessas manifestações isoladamente, veremos que a capoeiragem possui mais elementos do que só o n’golo ou outra manifestação que por si só lembre a capoeira. Ela pode ter nascido de um acontecimento que se deu através das miscigenações dos negros de diferentes localidades por meio de uma estratégia que, de acordo com RIBEIRO (1995 pag. 115), era a política de evitar a concentração de escravos oriundos de etnias iguais, nas mesmas propriedades e, até mesmo, nos navios negreiros, impedindo a formação de núcleos solidários”.
Os europeus não queriam aglutinações de escravos da mesma localidade, ficando assim mais difícil as articulações de fugas ou manifestações de suas culturas. Essa miscigenação de etnias pode ter sido o motivo de a capoeira conter elementos de manifestações africanas e não ser oriunda de nenhuma delas.
De acordo com ALLEONI (2010 pag. 27), se unirmos componentes do n’golo, bassúla, kambangula, entre outras manifestações africanas, é possível ficar bem próximo da arte hoje conhecida como capoeira. Porém não sendo a capoeiragem que se jogou e que se joga em solo brasileiro. CONDE (2007 pag. 27) diz que por não haver documentos anteriores ao final do século XVII e inicio do século XVIII, não se pode carimbar sua origem. Assim hipoteticamente, a capoeira teria nascido no Brasil, mais especificamente, nas senzalas, dando recurso ao escravo para fugir e ganhar liberdade e construir os quilombos. O próprio CONDE (2007) acrescenta dizendo que: “essa origem da capoeira apresenta-se sem nenhuma referência a uma história documentada, nem proveniente dos ensinamentos dos antigos mestres, talvez para legitimar certas posições ideológicas”. (CONDE 2007 p. 26).
Muito embora seja suficientemente esclarecido que a capoeira é uma luta surgida no Brasil, é preciso considerá-la como parte da dinâmica constante da cultura afro-brasileira. Assim, a capoeira surgiu de um conjunto de aspectos pré existente nas culturas das comunidades africanas (rituais, danças, jogos, cultura musical etc).
É assim que devemos compreender a questão a capoeira surgiu no Brasil como luta de resistência de uma comunidade que trazia uma imensa bagagem cultural de sua terra de origem e que precisou desenvolver um conjunto de técnicas de ataque e defesa em virtude da situação de opressão em que vivia durante a escravidão. Aliás, devemos considerar que a capoeira faz parte de todo um processo de resistência dos negros no Brasil, que também se expressou na religião, na arte, na cultura, na culinária etc.
Em outras palavras: era necessário aos negros não só permaneceram vivos e lutarem pela sua liberdade era preciso também preservar aspectos de sua cultura ancestral. Iê Viva a Raça Negra camará!
O BERIMBAU
Devido a uma falta de pesquisa científica musical no continente africano e no Brasil até ao redor da mudança do século, nosso conhecimento de qualquer aspecto da musica folclórica antes daquele tempo é limitado quase exclusivamente as narrativas dos antigos viajantes e cronistas, estas narrativas são muitas vezes superficiais ou imprecisas.
Estima-se que o arco musical tenha surgido por volta de 1500 A.C., e instrumentos derivados do arco foram encontrados nas mais diversas regiões do mundo, como no Novo México, na Patagônia, na África e em civilizações antigas, entre elas a egípcia, a fenícia, a hindu, a persa e a assíria. Porém, há registos do hungu da forma que conhecemos, desde tempos primitivos, em Angola. Da África, o berimbau foi levado ao Brasil pelos escravos africanos, acabando por ser incorporado na prática da arte-marcial afro-brasileira “capoeira”, na qual o som do berimbau comanda o ritmo dos movimentos do capoeirista. Contudo, no Brasil o instrumento acabou por se disseminando para outras manifestações culturais, como na música popular brasileira.
O berimbau, é um instrumento de corda, também conhecido como berimbau de peito em Portugal ou como hungu em Angola e grande parte do continente africano.
Em Angola também é conhecido por m'bolumbumba e é utilizado entre os quimbundos, ovambos, nyanekas, humbis e khoisan.
No sul de Moçambique, tem o nome de xitende. No Brasil, também é conhecido por urucungo, urucurgo,orucungo, oricungo, uricungo, rucungo, ricungo, marimbau, bucumbumba, bucumbunga,gunga, macungo, matungo, mutungo, aricongo, arco musicale rucumbo.
NA CAPOEIRA
O berimbau é um elemento fundamental na capoeira, sendo reverenciado pelos capoeiristas antes de iniciarem um jogo. Alguns o consideram um instrumento sagrado. Ele comanda a roda de capoeira, dita o ritmo e o estilo de jogo. São dados nomes às variações de toques mais conhecidas, e quando se toca repetidamente um mesmo toque, diz-se que está jogando a capoeira daquele estilo. As variações mais comuns são Angola, Banguela e São Bento Grande da Regional.
Na capoeira, até três berimbaus podem ser tocados conjuntamente, cada um com uma função mais ou menos definida.
- O Gunga (berra-boi) com a cabaça maior tem o tom mais grave faz a base a marcação, raramente com improvisações. O tocador do Gunga no começo de uma roda de capoeira geralmente é seu líder, sendo seguido pelos outros instrumentos. O tocador principal do gunga geralmente também lidera a cantoria, além de convidar os jogadores ao "pé do berimbau" (para inciarem o jogo).
- O Médio com a cabaça mediana um pouco menor do que a do gunga tem o tom médio, complementa o gunga. Por exemplo, enquanto o gunga faz a base, o médio pode tocar uma variação. O diálogo entre o gunga e o médio caracteriza o toque.
- O Viola que tem a cabaça pequena tem o tom mais alto, agudo, toca a maioria das improvisações dentro do ritmo definido pelos outros dois. O tocador do violinha harmoniza e quebra para acentuar as músicas.
DESCRIÇÃO
É constituído por uma vara em arco, de madeira ou verga, com um comprimento aproximado de 1,50m a 1,70m e um fio de aço (arame) preso nas extremidades da verga. Na sua base é amarrada uma cabaça com o fundo cortado que funciona como caixa de ressonância. O tocador de berimbau usa uma das mãos para sustentar o conjunto e pratica um movimentos de vai e vem contra o ventre, utilizando uma pedra ou uma moeda (dobrão), para pressionar o fio. A outra mão, com uma varinha, percute o fio.
caxixi, dobrão e baqueta
MESTRE BIMBA
Aos 23 de novembro de 1900, início de um novo século, no bairro de Engenho Velho, freguesia de brotas, em Salvador, Bahia, nascia Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba. Seu apelido BIMBA, ele ganhou logo que nasceu em virtude de uma aposta feita entre sua mãe e a parteira que o “aparou” Sua mãe D. Maria Martinha do Bonfin, dizia que daria luz a uma menina. A parteira afirmava que seria homem. Apostaram. Perdeu dona Maria Martinha e o Manoel, recém-nascido, ganhou o apelido que o acompanharia para o resto de sua vida. Bimba é, na Bahia, um nome popular do órgão sexual masculino em crianças.
Seu pai, o velho Luiz Cândido Machado, era citado nas festas de largo como grande “batuqueiro”, como campeão de “Batuque”, “a luta braba, com quedas, com a qual o sujeito jogava o outro no chão”.
Aos 12 anos de idade, Bimba, o caçula de dona Martinha, iniciou-se na Capoeira, na Estrada das Boiadas, hoje bairro da Liberdade, em Salvador. Seu Mestre foi o africano Bentinho, Capitão da Cia. de Navegação Bahiana. Neste tempo, a capoeira era bastante perseguida e Bimba contava: “naquele tempo a Capoeira era coisa para carroceiro, trapaceiro, estivador e malandros. Eu era estivador, mas fui um pouco de tudo. A polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado. Imagine só, que um dos castigos que davam a capoeiristas que fossem presos brigando, era amarrar um dos punhos num rabo de cavalo e outro em cavalo paralelo. Os dois cavalos eram soltos e postos a correr em disparada até o quartel... Comentavam até, por brincadeira, que era melhor brigar perto do quartel, pois houve muitos casos de morte. O indivíduo não aguentava ser arrastado em velocidade pelo chão e morria antes de chegar seu destino o quartel de polícia”.
ORIGEM
A essa altura, Bimba começou a sentir que a “Capoeira Angola”, que ele praticava e ensinou por um bom tempo, tinha se modificado, degenerou-se e passou a servir de “prato do dia” para “pseudos-capoeiristas”, que a utilizavam unicamente para exibições em praças e, por possuir um número reduzido de golpes, deixava muito a desejar em termos de luta. Aproveitou-se então do “Batuque” e da “Angola” e criou que chamou de “Capoeira Regional”, uma luta baiana. Possuidor de grande inteligência, exímio praticante da “Capoeira Angola” e muito íntimo dos golpes do “Batuque”, intimidade esta adquirida com seu pai, um Mestre nesse esporte, foi fácil para Bimba, com seu gênio criativo, “descobrir a Regional”.
EVOLUÇÃO
Criada a Regional, Bimba deu, talvez, a sua maior contribuição à Capoeira: criou um método de ensino para esta, coisa - que até então não existia: “o capoeirista aprendia de oitiva” dizia o Mestre. O que caracteriza a capoeira Regional é a sua “Sequência de Ensino”: “Esta Sequência é uma série” de exercícios físicos completos e organizados em um número de lições práticas e eficientes, a fim de que o principiante em Capoeira, dentro de menor espaço de tempo possível, se convença do valor da luta, como um sistema de ataque e defesa. A Sequência é para o capoeirista o seu ABC. Ela veio contribuir de maneira definitiva para aprendizado da Capoeira.
Já bastante familiarizado com seu método, com a Regional, Bimba passou à parte mais importante, que consistia em testar a sua Capoeira em “rodas” estranhas. Não deu em outra coisa! Bimba chegava, entrava na roda e aos “Galopantes”, “Vingativas”, “Bandas Trançadas”, etc., colocava a tal ponto, que quando ele chegava a uma “roda” com seus alunos da Regional, a roda simplesmente acabava por motivos óbvios! Ninguém queria jogar com Bimba, contra a sua Capoeira Regional, que passou a dar fama ao seu criador e a tornar-se conhecida.
Mestre Bimba faleceu no dia 05 de fevereiro de 1974 em Goiânia.
MESTRE PASTINHA
Quem Foi Mestre Pastinha?
Esta pergunta sugere uma linda história, real, vivida por um heróico personagem que aos 75 anos de existência conservava a mente e agilidade física de um jovem, impressionando, vivamente, aqueles que tiveram a ventura de o ver “jogar Capoeira” com os seus discípulos.
Junto de Mestre Pastinha nos sentimos contagiados do seu entusiasmo religioso pela Capoeira Angola que, desde menino, pratica com rara devoção e quando a ela se refere nota-se em seu olhar um brilho estranho que traduz a alegria que me vai na alma, como se falasse da razão de ser de sua própria vida.
A prática da Capoeira Angola exerceu na personalidade de Mestre Pastinha um irresistível fascínio que o transformou - num verdadeiro predestinado para o ensino desta modalidade esportiva que praticada em obediência a seus ensinamentos pode contribuir, poderosamente, para o equilíbrio psico—físico do homem.
Vicente Ferreira Pastinha — este é o seu nome de batismo.
Nasceu. a 5 de Abril de 1889, na Cidade do Salvador.
Fala-nos com palavras impregnadas da mais pura gratidão acerca de Mestre Benedito, um negro natural de Angola com o qual iniciou a prática da Capoeira e, nessa época, o menino Vicente Pastinha contava 10 anos de idade.
É de impressionar, com que lealdade e abnegação, Mestre Pastinha mantinha o ensino da Capoeira Angola, em sua pureza original, tal como a recebeu dos mestres africanos, não permitindo, em sua Academia, que fôsse deformada com a introdução de práticas próprias de outros métodos de luta, sendo, por tal procedimento, reconhecido como o legítimo representante da Capoeira Angola na Bahia e no Brasil a cujo folclore, seu nome, estará eternamente ligado.
A história de Mestre Pastinha é longa, em grande parte, uma luta contra as adversidades - será assunto para um livro que nos contara sua vida que se confunde com a história da Capoeira na Bahia.
Portanto vale destacar a figura do Mestre Pastinha, pelo muito que contribuiu para maior difusão da capoeira e por ter sido o mais antigo e famoso mestre-capoeira da Bahia, conhecido em quase todo o Brasil e também no exterior, na África, onde juntamente com seus discípulos e acompanhado de alguns mestres, por ele convidados, representou. o Brasil no I Festival de Arte Negra, em Dakar. Foi também o fundador da primeira Escola de Capoeira, em 1910, localizada no Campo da Pólvora.
A respeito do seu ingresso na capoeira, ele nos contava assim:
“Quando eu. tinha dez anos de idade, eu era franzininho, outro menino, mais taludo que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua, ia fazer compras por exemplo e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando sempre. Contava ainda o tal menino com o apoio de sua mãe, que o incentivava a bater mais. Ao voltar para casa eu. ainda apanhava pela segunda vez, de minha madrinha, por causa da demora em trazer as compras ou por estar com a roupa rasgada. Então eu ia chorar de vergonha e tristeza. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu a briga da gente. “Vem ca meu filho”, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. “Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade, O tempo que você perde empinando arraia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. Foi isso que o velho me disse e eu fui. Ele arrastava os móveis da sala e deixava um espaço livre onde me ensinava a jogar capoeira, todo dia uma pouco e aprendi tudo. Ele costumava dizer: “Não provoque, menino, vai botando de vagarzinho ele sabedor do que você sabe”. Um ano depois encontrei o menino na rua. Ele então me perguntou: “Estava viajando ou estava se escondendo cora medo de mim?” Eu então lhe respondi: Estava com medo. A mãe do menino já se encontrava na porta, sorrindo divertida, esperando o início do espetáculo, quando seu filho venceria novamente a batalha. Mas, para sua surpresa aconteceu ao contrário. Assim que o menino levantou a mão para desferir a pancada, com um só golpe, mostrei-lhe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito. “O velho africano chamava-se Benedito e quando me ensinou o jogo tinha mais idade do que eu hoje”.
Muitos anos depois, em 1941, numa tarde de domingo, um ex-aluno do Mestre Pastinha de nome Aberrê, de Santo Amaro da Purificação, convidou-o para acompanhá-lo ao bairro da Liberdade, na Ladeira das Pedras, no Gingibirra, onde se formava todos os domingos uma roda de capoeira. Lá se encontravam os maiores mestres da Bahia. Mestre Pastinha aceitou o convite e passou a tarde a “vadiar” e assistir aos outros mestres, inclusive o seu ex- aluno Aberrê, que já era famoso no local. No fim da tarde, eles se reuniram e era nome de todos os mestres ali presentes, um dos maiores mestres da Bahia, de nome Amorzinho, entregou a capoeira angola ao Mestre Pastinha, para que ele tomasse a frente e a colocasse em seu devido lugar. Diante do acontecimento ele fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, registrando-o em 1952, favorecendo com isso, para o desenvolvimento da Capoeira Angola na Bahia.
Em sua Academia, anteriormente situada no Largo do Pelourinho n. 19, onde hoje funciona o SENAC, e posteriormente na Rua Gregório de Matos n. 51. Foi um grande capoeirista, talvez o melhor que a Bahia já conheceu, gingava de um modo que ninguém nunca conseguiu imitá-lo.
Maculelê História
Maculelê é um tipo de dança folclórica brasileira de origem afro-brasileira e indígena.
O maculelê em sua origem era uma arte marcial armada, mas atualmente é uma forma de dança que simula uma luta tribal usando como arma doisbastões, chamados de grimas (esgrimas), com os quais os participantes desferem e aparam golpes no ritmo da música. Num grau maior de dificuldade e ousadia, pode-se dançar com facões em lugar de bastões, o que dá um bonito efeito visual pelas faíscas que saem após cada golpe. Esta dança é muito associada a outras manifestações culturais brasileiras como a Capoeira e o frevo.
Popó do Maculelê foi um dos responsáveis pela sua divulgação, formando um grupo com seus filhos, netos e outros habitantes da Rua da Linha, emSanto Amaro, chamado Conjunto de Maculelê de Santo Amaro da Purificação. Existem também outras comunidades, como a comunidade quilombolaMonte Alegre, no sul do município de Cachoeiro de Itapemirim, onde o maculelê ainda é passado de geração em geração, com o objetivo de não perder a cultura tradicional.
A verdadeira origem do maculelê é desconhecida, existindo diversas lendas a seu respeito. Estas lendas, naturalmente, vieram da tradição oral característica às culturas afro-brasileira e indígena da época doBrasil Colônia e inevitavelmente sofreram alterações ao longo do tempo.
Em uma delas conta-se que Maculelê era um negro fugido que tinha doença de pele. Ele foi acolhido por uma tribo indígena e cuidado pelos mesmos, mas ainda assim não podia realizar todas as atividades com o grupo, por não ser um índio. Certa vez Maculelê foi deixado sozinho na aldeia, quando toda a tribo saiu para caçar. Eis que uma tribo rival aparece para dominar o local. Maculelê, usando dois bastões, lutou sozinho contra o grupo rival e, heroicamente, venceu a disputa. Desde então passou a ser considerado um herói na tribo.
Outra lenda fala do guerreiro indígena Maculelê, um índio preguiçoso e que não fazia nada certo; por esta razão, os demais homens da tribo saíam em busca de alimento e deixavam-no na tribo com as mulheres, os idosos e as crianças. Uma tribo rival ataca, aproveitando-se da ausência dos caçadores. Para defender a sua tribo, Maculelê, armado apenas com dois bastões já que os demais índios da sua tribo haviam levado todas as armas para caçar, enfrenta e mata os invasores da tribo inimiga, morrendo pelas feridas do combate. Maculelê passa a ser o herói da tribo e sua técnica reverenciada.
Existem diferentes versões para cada lenda, mas a maioria mantém como base o ataque rival, a resistência solitária e a improvisação dos dois bastões como arma. O maculelê atual, usando a dança com bastões, simboliza a luta de Maculelê contra os guerreiros rivais.
Estudos desenvolvidos por Manoel Querino (1851-1923) apontam indicações de que o maculelê poderia ser um fragmento do Cucumbi, apesar das notáveis diferenças.
O maculelê é uma dança que pode envolver mulheres e homens.
Indumentárias
Hoje em dia a maioria das apresentações de maculelê usam como vestimenta as saias feitas de sisal, além de pintura corporal tradicionalmente indígena. Contudo outros praticantes preferem os abadás brancos típicos da Capoeira, enquanto outros se utilizam de vestimentas típicas das tribos africanas Iorubá, com calças e camisas feitas de algodão cru.
A música no maculelê é composta por percussão e canto.
Percussão[editar]
O atabaque é o principal instrumento no maculelê. A bateria mais comum é composta apenas por três atabaques, nomeadamente:
- Rum - Atabaque maior com som grave;
- Rumpi - Atabaque de tamanho médio com som intermediário;
- Lê - Atabaque pequeno com som mais agudo.
Os dois primeiros atabaques, o rum e o rumpi, fazem a base do toque com pouco improviso, enquanto o atabaque lê, sendo mais agudo, executa diversos repiques de improviso. Esta formação é notadamente similar à dos berimbaus da capoeira, com seus berimbaus gunga, médio e viola.
Tradicionalmente também faziam parte da bateria o agogô e o ganzá, mas a utilização destes dois instrumentos caiu em desuso.
Canto[editar]
As apresentações de maculelê seguem o estilo do amálgama entre as culturas indígena e afro-brasileira, com um dos instrumentistas cantando um verso solista, seguido pela resposta em coro dos demais praticantes. As letras falam de diversas situações, algumas como a "Fulô da Jurema" evidenciam a influência indígena, outras como a "Louvação aos Pretos de Cabindas" evidenciam a influência afro-brasileira.
Alguns cantos tem funções especiais:
- Para sair à rua;
- De chegada a uma casa, um pedido de permissão para entrar;
- De agradecimento, quando saiam da casa, agradecendo a hospitalidade;
- De homenagem a pessoas importantes da história;
- De louvação aos ancestrais;
- Peditório, quando passavam um chapéu para arrecadar algum dinheiro.
Bibliografia[editar]
- MUTTI, Maria. Maculelê. Bahia: Secretaria Municipal de Educação e Cultura Salvador, 1978.
- Carybé. As Sete Portas da Bahia. Coleção Recôncavo ed. [S.l.]: Editora Livraria, 1951.
- ALMEIDA, Plínio de. Pequena História do Maculêle. [S.l.: s.n.].






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